Morre Chico Anysio, um dos gênios do humor brasileiro

São muitos os apostos que acompanharam a carreira de Chico Anysio, sendo o habitual humorista o mais reducionista em relação à abrangência de sua obra. Talvez, o que melhor defina a trajetória do cearense de Maranguape tenha sido o termo sociólogo do riso, cunhado em 1973 pelo jornal O Globo. A verve politica de Chico Anysio sempre andou de mãos dadas com seu lado cômico que, aliás, serviu de plataforma para destilar, ainda que disfarçada de piada, sua contundente postura crítica. Juntar humor e crônica social sempre foi a especialidade de Francisco Anísio Vianna de Oliveira Paula morto nesta sexta-feira, 23 de março, aos 80 anos. Chico Anysio estava internado desde o dia 5 de dezembro no hospital Samaritano, no Rio. Ele chegou com infecção urinária. Recebeu alta no dia 21 de dezembro mas voltou a ser internado no dia seguinte por causa de uma hemorragia intestinal. O quadro evoluiu para uma pneumonia. 

No começo do ano, Chico passou três meses hospitalizado por causa de dor no peito. Na ocasião, ele foi submetido a uma angioplastia para desobstrução de artéria, seguida de uma traqueostomia e uma endoscopia.

Os muitos tipos criados e interpretados por Chico Anysio ao longo dos 64 anos de carreira mais do que fazer rir, na verdade, explicitavam aspectos vergonhosos da sociedade brasileira. Na galeria de 209 tipos cômicos – número apontado em seu site –, é possível detectar a prática do coronelismo, o culto à celebridade, o populismo, a confusão entre esferas pública e privada, a corrupção, o analfabetismo, a diferença entre ricos e pobres, entre outras mazelas políticas e sociais. Boa parte deles foram apresentados ao público entre 1973 e 1980, durante o programaChico City. A atração foi a primeira longeva da carreira televisiva de Chico que teve início em 1957 com o programa Noite de Gala, da TV Rio. Onze anos depois, em 1968, o humorista entraria para o elenco da Globo. Entre 1982 e 1990, ele apresentou o Chico Anysio Show.

No início dos anos 70, a crítica política e social também se tornava foco do humor, na Inglaterra, com a estreia da série cômica Monthy Python. Por aqui, Chico Anysio e Jô Soares seguiam a tendência de criticar, com humor, o conservadorismo político. “Em algumas épocas, sobretudo as de forte censura, o humor funcionou como válvula de escape, já que possui vocação intrínseca para revelar verdades escondidas sob o véu da mera diversão”, diz Elias Thomé Saliba, titular de teoria da história da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro As Raízes do Riso (editora Companhia das Letras, 366 páginas), em reportagem publicada no site de VEJA.

Tanto Chico Anysio, com Chico Anysio Show, quanto Jô Soares, com Viva o Gordo, precedidos por José Vasconcelos, transformaram a fórmula em apresentações ao vivo concorridas. Sobre o palco, diante do microfone, os dois destrinchavam o repertório de crítica política e social travestida de humor. O formato é idêntico à vigente comédia stand-up, praticada por humoristas jovens fazem sucesso ao satirizar aspectos do cotidiano e celebridades.

Em suas últimas aparições públicas, Chico Anysio reclamou da geladeira a que foi submetido pela TV Globo. “De 1957, quando entrei na televisão, até 2002, quando extinguiram meus programas, sempre fui líder de audiência. Não sabia o que tinha feito de errado. Passei dias pensando em todos os diretores da Globo, um por um, para tentar chegar a quem teria me boicotado. Também pensei que os irmãos Marinho não gostavam de mim. Se o pai deles (Roberto Marinho, fundado da Rede Globo) estivesse vivo, eu não teria saído do ar”, disse Anysio em entrevista à revista VEJA.

O criticismo ferrenho que sempre direcionou a políticos, ultimamente, mirou o próprio humor brasileiro televisivo. “Quero ver criarem fenômenos duradouros, capazes de lançar bordões que se repitam nas ruas, como faço.” 

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